Comércio Exterior: Nova Postura
Por Mauro Lourenço Dias
25/09/2009
Com a crise financeira iniciada nos Estados Unidos em 2008, todo o mundo sofreu
conseqüências e o Brasil não escapou aos seus efeitos. O resultado mais
flagrante desse estado de coisas – para o qual o País não contribuiu, diga-se de
passagem – foi o predomínio de commodities nas exportações brasileiras, fenômeno
que alguns especialistas já chamam de “commoditização”, o neologismo mais
recente a circular no mercado.
Basta olhar o ranking das 20 maiores empresas exportadoras do Ministério do
Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC) para se constatar que montadoras e
fabricantes de máquinas e celulares abriram espaço para mineradoras, tradings de
soja e petroquímicas. Hoje, as exportações de produtos básicos respondem por
42,6% das vendas externas. E nessa pauta o que se sobressai é o minério de
ferro, em razão das necessidades de crescimento da China.
Segundo estimativas da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), o
minério de ferro deve ser o único item a superar US$ 10 bilhões de receita de
exportação até o fim do ano, levando em conta que o produto subiu de 6,9% nos
primeiros seis meses de 2008 para 9,4% de janeiro a junho de 2009 na pauta
brasileira.
Isso levou a Vale a ocupar a primeira colocação na lista das 20 maiores
exportadoras do País, superando a Petrobrás. Aliás, entre as empresas
exportadoras de produtos industrializados, só Embraer, Volkswagen e
Mercedes-Benz continuam no ranking, ainda que venham amargando quedas em suas
vendas externas. É de lembrar que, no primeiro semestre do ano passado, eram
sete os fabricantes de produtos manufaturados que ocupavam o ranking.
Não se está diante de um colapso iminente das contas externas, até porque não há
nenhum inconveniente em que o País se destaque como grande exportador de
commodities. Pelo contrário. O que é motivo de preocupação é a significativa
redução de 31,1% das exportações de produtos manufaturados, em função da fraca
demanda internacional e do acirramento da concorrência.
O maior problema que se constata é a redução das exportações dos produtos de
alta tecnologia que, no primeiro semestre de 2001, chegaram a representar 11,8%
das exportações e caíram para 6,3% no primeiro semestre deste ano. Para piorar,
no período, houve ainda uma brutal redução de 35,5% nas exportações para a
Argentina. Isso ainda é mais preocupante porque, em relação a Argentina e ao
Mercosul, o Brasil nunca atuou como exportador de commodities, mas como
exportador de manufaturados, chegando esse item a representar mais de 90% do
total das vendas para os países vizinhos.
Se é verdade que esse quadro é resultado do fraco desempenho da economia
argentina, incapaz de absorver mais, não se pode deixar de constatar uma
“invasão” de produtos chineses no mercado platino e em toda a América Latina,
que começam a substituir os produtos brasileiros.
De tudo isso, o que parece claro é que urge por parte do governo ações que
estimulem o destravamento do comércio exterior. Não basta mais o governo
anunciar estratégias destinadas a desburocratizar os procedimentos
alfandegários. Isso tem sido anunciado periodicamente e os resultados sempre
foram pouco representativos, a ponto de ainda persistirem numerosos obstáculos.
Em outras palavras: o que impede o deslanche do comércio exterior brasileiro –
hoje ainda com uma participação mundial ao redor de 1,2% – é o chamado custo
Brasil, que inclui uma carga tributária escorchante e falhas gritantes na
infra-estrutura portuária e rodoferroviária. Em termos práticos, porém, pouco se
vê em relação a isso: o governo não tem aproveitado a maioria de que dispõe no
Congresso para fazer andar uma legislação tributária menos opressiva, enquanto
as obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), quando saem do papel,
seguem um ritmo excessivamente lento.
A par disso, o Brasil precisa rever sua competitividade no exterior, colocando
logo em funcionamento um Ex-Im Bank para fomentar as exportações, além de
participar mais de feiras internacionais, divulgando os produtos nacionais. É
preciso reconhecer que o comércio exterior mudou muito. E que o novo quadro
internacional exige do País uma nova postura.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br